sexta-feira, setembro 08, 2006

Um poema

A vida é tão áspera muitas vezes, que não consigo entender como as pessoas conseguem viver sem um sopro de poesia. Para os letrados, um bom livro, um poema e um filme bem que conseguem trazer um certo lirismo para o dia a dia. Para os que nem a isso têm acesso, a concretude da vida parece bastar. Como alimentar o espírito, se ao final do dia o que se tem é um corpo dolorido, cansado e faminto?
Cada um elege suas carências, conforme suas necessidades mais urgentes.
"A poesia, se não resolve, consola o ser humano da sua miserabilidade, da sua incognoscência, das precariedades do seu "design" imperfeito. Dá-lhe, quem sabe, a ilusão de estar um pouco acima", disse Augusto de Campos, em uma entrevista para a Folha de São Paulo, tratando da poesia no mundo atual.
De qualquer modo, e seja lá como for, eis um poema que me arranca lágrimas vez ou outra. Ele me atinge profundamente. Manuel Bandeira... Nem sei quando descobri que ele era o maior poeta brasileiro e nem quero menosprezar a importância de Drummond. Eu amo Drummond, de coração. Mas ...
Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
_ Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
_ Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
In Libertinagem, 1930.