sábado, março 04, 2006

O "segredo" de Brokeback Mountain


Ganhei dois ingressos para o filme e resolvi conferir que tipo de estória gay Ang Lee teria a oferecer. Tive que ir a uma sala do Cinemark (argh!) e suportar aquele padrão que comporta muito bem o cineminha americano produzido em quantidades quase insuportáveis. Mas é de Ang Lee que estamos falando e até uma sala do Cinemark pode tornar-se interessante.
Entrei quase no horário previsto para o início, às 20h30. Considerei a sala vazia e pensei comigo mesma: que bom! Procurei um lugar nas poltronas mais acima e logo encontrei um. Joguei a bolsa na cadeira ao lado e, para não ter que escutar "conversinhas - cochichos", liguei meu player (metida eu, hein?) e assisti desapontada ao "entra e mais entra" de tanta gente, que logo havia poucos lugares disponíveis. Foi quando a sorte quis brincar comigo: uma gorducha com um balde imenso de pipocas e um litro de refrigerante sentou-se ao meu lado, quase que transbordando de uma poltrona à outra. Tive que mudar a bolsa para o outro lado que, graças!, permanceu vazio. Acredito mesmo que tem gente que vai ao cinema apenas para se entupir de pipoca e refrigerante, no escurinho, que é para a luz da consciência não causar remorsos a respeito do que se faz consigo mesmo. Tudo bem, vai, é ao filme do Ang que fui assistir e até isso também é possível aturar.
Após essa preconceituosa introdução (os gordinhos que me perdoem!), vamos ao filme. Confesso que ele me desconcertou: a narrativa lenta, porque se mantém igual, apesar de abarcar 20 anos, com um nível de tensão morno, que permanece do início ao fim, sem qualquer "crescendo" dramático objetivo. Nem por isso, deixa de ser um bom filme, mas como e por quê? Na volta, ainda no Metrô, resolvi pensar a respeito. Como um filme sem nenhum lance dramaticamente explícito pode ser tão dramaticamente humano? Como duas personagens à primeira vista chucros, podem conter em si tanto lirismo?
Pensei nas duas personagens e descobri que Ang Lee foi inteligente o suficiente para conferir a Ennis Del Mar a tarefa de segurar o ritmo da narrativa, de torná-la, muitas vezes, morna, de esconder-nos o máximo possível o que de lírico possa existir no amor. Sim, é essa personagem que dá tom ao filme que, ao final, nada mais é do que reflexo de sua postura perante o mundo. A narrativa não se dá sob o seu ponto de vista, mas a partir de seu estado de espírito. Ele, de fato, não deixa que a relação que durou vinte anos flua de modo natural, o que é bastante compreensível, se levarmos em consideração a época e tipo de sociedade em que a estória se insere. Não poderia dizer que ele se rende ao amor por outro homem. Não. Talvez siga tortuosamente seus sentimentos, sem deixar que esses se tornem maior que o medo que guarda em si. A voz definitivamente embargada que utiliza é de fato a representação pura da personalidade contida e esta impõe-se de forma imperiosa no filme, amalgamando-se definitivamente com o enredo. Daí a narrativa que flui guiada pelos arreios de Ennis.
A fotografia é sensacional! Principalmente as primeiras cenas na montanha. Vale a pena. Se vai ganhar o Oscar? A mim me interessam pouco os rumos que a indústria hollywoodiana tenta nos impor goela abaixo.
É isso. .