domingo, maio 10, 2015

Ferrugem

Que bom retornar a esse espaço, confesso que encontrei dificuldades para redefinir minha senha, acho que estava enferrujada dessa coisa de internet, blog e tudo o mais.

Na verdade, a rede me servia ultimamente como jornal on line e para ler minha caixa de e-mails repleta de ofertas de toda espécie: monotonia total.

O exercício da escrita é o que mantém a mente ativa e não poderia ter sido abandonado, na verdade, acho que nunca o foi. Se foi, retomado está o hábito.
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sexta-feira, setembro 08, 2006

Ok, um pouquinho dele.

Um pouco de Drummond, parte de um belo poema.
NUDEZ
Não cantarei amores que não tenho,
e, quando tive, nunca celebrei.
Não cantarei o riso que não rira
e que, se risse, ofertaria aos pobres.
Minha matéria é o nada.
Jamais ousei cantar algo de vida:
se o canto sai da boca ensimesmada,
é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa,
nem sabe a planta o vento que a visita. (...)

Do amor

Ultimamente tenho pensado sobre a não-coincidência da expectativa amorosa. O que move alguém em direção ao outro na intenção de estabelecer laços ou estreitá-los, sem que a recíproca seja verdadeira. E quando o é ou passa a sê-lo, é o primeiro que já não tem o mesmo interesse e corre na direção contrária. O filme Closer é um perfeito exemplo disso. Aliás há um poema que é seu correspondente em versos. Se já fiz essa comparação? Já, em um texto que não está aqui e penso que não estará. Por quê? Não quero e não há razão melhor para deixá-lo de fora do blog.
O poema, ah!, o poema. O que vem à mente , "Quadrilha", do Drummond? Não, corro ao encontro de Bandeira, uma vez mais, não pelo tema de meus questionamentos tolos, mas pela solução proposta e com a qual concordo. Plenamente.
*
ARTE DE AMAR
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
*
As almas são incomunicáveis.
*
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
*
In Belo Belo.

Um poema

A vida é tão áspera muitas vezes, que não consigo entender como as pessoas conseguem viver sem um sopro de poesia. Para os letrados, um bom livro, um poema e um filme bem que conseguem trazer um certo lirismo para o dia a dia. Para os que nem a isso têm acesso, a concretude da vida parece bastar. Como alimentar o espírito, se ao final do dia o que se tem é um corpo dolorido, cansado e faminto?
Cada um elege suas carências, conforme suas necessidades mais urgentes.
"A poesia, se não resolve, consola o ser humano da sua miserabilidade, da sua incognoscência, das precariedades do seu "design" imperfeito. Dá-lhe, quem sabe, a ilusão de estar um pouco acima", disse Augusto de Campos, em uma entrevista para a Folha de São Paulo, tratando da poesia no mundo atual.
De qualquer modo, e seja lá como for, eis um poema que me arranca lágrimas vez ou outra. Ele me atinge profundamente. Manuel Bandeira... Nem sei quando descobri que ele era o maior poeta brasileiro e nem quero menosprezar a importância de Drummond. Eu amo Drummond, de coração. Mas ...
Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
_ Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
_ Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
In Libertinagem, 1930.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Nada a ver

Às vezes a gente escreve umas bobagens e quando, depois de algum tempo, tem a oportunidade de relê-las, tudo torna-se patético, cômico até. O texto a seguir me soa engraçado, quando o escrevi, no entanto, deveria estar completamente envolvida pelo impacto de cursar duas faculdades tão distintas entre si e em vários sentidos. Desde de conteúdos tão opostos, aos campi tão diferentes e ao público completamente distinto.
Hoje já dá para dizer que gosto dos dois cursos, senão igualmente, pelo menos com um certo entusiasmo e se já dizia Fernando Pessoa, ele mesmo, "tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
Ah! O texto. Segue.

Foram-se o bosque, as diversas livrarias, o cinema, as bibliotecas e entrou, forte e pesado, o bloco de concreto. Com ele, as Exatas ao extremo.
Foram-se também o ar acadêmico, a postura posada e o nariz empinado. O academicismo aqui parace não existir, lá, transborda pelos corredores e pela vastidão do campus. Aqui estão os que lá não puderam estar, aqueles que o transbordamento irritante da classe intelectual expulsou para além dos muros da cidade que, se prega o conhecimento ao máximo, restringe-o para o menor número possível.
Foda-se.

sábado, março 04, 2006

O "segredo" de Brokeback Mountain


Ganhei dois ingressos para o filme e resolvi conferir que tipo de estória gay Ang Lee teria a oferecer. Tive que ir a uma sala do Cinemark (argh!) e suportar aquele padrão que comporta muito bem o cineminha americano produzido em quantidades quase insuportáveis. Mas é de Ang Lee que estamos falando e até uma sala do Cinemark pode tornar-se interessante.
Entrei quase no horário previsto para o início, às 20h30. Considerei a sala vazia e pensei comigo mesma: que bom! Procurei um lugar nas poltronas mais acima e logo encontrei um. Joguei a bolsa na cadeira ao lado e, para não ter que escutar "conversinhas - cochichos", liguei meu player (metida eu, hein?) e assisti desapontada ao "entra e mais entra" de tanta gente, que logo havia poucos lugares disponíveis. Foi quando a sorte quis brincar comigo: uma gorducha com um balde imenso de pipocas e um litro de refrigerante sentou-se ao meu lado, quase que transbordando de uma poltrona à outra. Tive que mudar a bolsa para o outro lado que, graças!, permanceu vazio. Acredito mesmo que tem gente que vai ao cinema apenas para se entupir de pipoca e refrigerante, no escurinho, que é para a luz da consciência não causar remorsos a respeito do que se faz consigo mesmo. Tudo bem, vai, é ao filme do Ang que fui assistir e até isso também é possível aturar.
Após essa preconceituosa introdução (os gordinhos que me perdoem!), vamos ao filme. Confesso que ele me desconcertou: a narrativa lenta, porque se mantém igual, apesar de abarcar 20 anos, com um nível de tensão morno, que permanece do início ao fim, sem qualquer "crescendo" dramático objetivo. Nem por isso, deixa de ser um bom filme, mas como e por quê? Na volta, ainda no Metrô, resolvi pensar a respeito. Como um filme sem nenhum lance dramaticamente explícito pode ser tão dramaticamente humano? Como duas personagens à primeira vista chucros, podem conter em si tanto lirismo?
Pensei nas duas personagens e descobri que Ang Lee foi inteligente o suficiente para conferir a Ennis Del Mar a tarefa de segurar o ritmo da narrativa, de torná-la, muitas vezes, morna, de esconder-nos o máximo possível o que de lírico possa existir no amor. Sim, é essa personagem que dá tom ao filme que, ao final, nada mais é do que reflexo de sua postura perante o mundo. A narrativa não se dá sob o seu ponto de vista, mas a partir de seu estado de espírito. Ele, de fato, não deixa que a relação que durou vinte anos flua de modo natural, o que é bastante compreensível, se levarmos em consideração a época e tipo de sociedade em que a estória se insere. Não poderia dizer que ele se rende ao amor por outro homem. Não. Talvez siga tortuosamente seus sentimentos, sem deixar que esses se tornem maior que o medo que guarda em si. A voz definitivamente embargada que utiliza é de fato a representação pura da personalidade contida e esta impõe-se de forma imperiosa no filme, amalgamando-se definitivamente com o enredo. Daí a narrativa que flui guiada pelos arreios de Ennis.
A fotografia é sensacional! Principalmente as primeiras cenas na montanha. Vale a pena. Se vai ganhar o Oscar? A mim me interessam pouco os rumos que a indústria hollywoodiana tenta nos impor goela abaixo.
É isso. .

domingo, fevereiro 26, 2006

Falha na interação

Desejei que este Blog fosse interativo, convidei pessoas que poderiam dar andamento à narrativa abaixo, mas não tive retorno. Também , mediocridade por mediocridade, eu me basto. Mas como se tratava de algo que criei em meia hora, acreditei que deveria usá-lo para estabelecer contato com o outro, uma forma de estender a mão. Naufraguei na tentativa e decidi que eu mesma darei andamento aos capítulos que virão ou que ficarão apenas no esboço.

Água nova


À la recherche du temps perdu, disse ela mirando o horizonte, sem estar certa de que seus olhos estivessem de fato presos à realidade a seu redor. A paisagem diante deles vinha de tempos remotos e era possível pressentir que nada estava definitivamente para trás, como quis em vão ela acreditar. Tinha uma espécie de semiconsciência a respeito do que havia conduzido sua alma a tais recordações. O ambiente tumultuado de turistas atrás de si havia desaparecido por completo. Não foram passos débeis, o que chegou, certamente, veio de forma decidida e definitiva. E o corpo ali, parado, sentindo o frio das cordilheiras petrificar as mãos e dificultar a respiração. Seria mesmo o frio das cordilheiras?
Calçou as luvas e trouxe a gola do casaco o quanto pôde para próximo do rosto. Caminhou rapidamente em direção ao carro, como se pudesse deixar para trás tudo que a ela chegou sem consentimento. Uma criança cruzou sua frente em disparada e ela, então, retornou a si. As flores, não comprei as flores! Voltou depressa à banca do florista e viu que seu molho de chaves estava na mão do proprietário, que balançava incrédulo a cabeça enquanto vinha de encontro a ela. Ela quis sorrir, mas apenas disse, As chaves, por favor. E completou, Preciso do vaso com as tulipas. Sacou a carteira da bolsa e sequer esperou pelo troco.
Na Mitre, era possível acreditar que as pessoas haviam escolhido propositalmente os mesmos tons de cinza a preto para vestir e pareciam mesmo seguir em cortejo fúnebre. A eles logo o céu resolveu unir-se, a noite escura invadia de forma pouco suave aquela tarde de fim de agosto. Pouco depois de atravessar o portal de entrada da cidade, mirou o vaso que chacoalhava no banco a seu lado e confirmou aliviada que ainda existiam contrastes no mundo. Chegou em casa e percebeu que estava acompanhada, trazia consigo a mesma sensação. Não é possível, não é, pensou enquanto ajeitava sobre a mesa as tulipas recém adquiridas. Onde está o vinho? Abriu todos os armários em vão, percorreu a vista por todas as superfícies alcançáveis, pensou na adega portátil em oferta na TV, Deus, quanta bobagem! Notou que aos seus pés Fred implorava-lhe carinho e atenção. Olá, meu amor, você esta aí? Por um instante, abandonou os pensamentos que lhe atormentavam e abriu o pacote de ração. E olhando em direção ao cão que lhe sorria com o rabo, de um lado a outro, disse, Olha aqui, ração e água nova. Água nova?

O Título

O por quê do título é sempre a incógnita que muitos querem saber a origem. Pois bem. Quem conhece Antonio Candido sabe que um dos livros tem esse título, escolhido para tratar da obra do Graciliano Ramos. Para Candido, a escritura de Graciliano pode ser dividida entre ficção e confissão e eu penso mesmo que sim.
Seja como for, longe de mim qualquer comparação com o escritor alagoano, mais que pretensão, seria algo inalcançável para mim. Escolhi o título, pois quero que neste espaço sejam encontradas muita ficção e um pouco de mim mesma, então, de alguma confissão. Confesso que é um projeto que a princípio me agrada, mas a vida precisa agradar vez e outra, também é uma forma de sentirmos a sua pulsação, plena como deve ser. Que seja.

É preciso

É preciso sempre um texto inaugural, é preciso sempre o primeiro passo. Da inércia à ação, qual o intervalo? Pouco importa, apenas que esse intervalo não seja o de uma vida.
O início da existência é sempre uma odisséia, são quantos espermatozóides tentando fecundar o óvulo? Não me lembro, mas não é de estatísticas de que se deve tratar neste momento. O que não devemos permitir é que de um início apoteótico chegue-se à automatização da vida e esta resuma-se em acordar, trabalhar, comer e dormir, num ciclo que se finaliza inexoravelmente na morte, mas que parece concluir algo em que já não havia vida.
Embora seja um texto inaugural, nada aqui será doutrinário ou proporá algo: isto não é um manifesto.
Manisfeta deve ser a vida, em toda a sua extensão. Hoje e sempre. Nem que seja a partir de agora, mas que seja.